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Desbafando XXII: A todos pais com e sem curso superior!

Olá caro amigo,


Se és pai, este artigo é mesmo para ti. Tens o 12.º ano ou algum curso superior? Também é para ti.
Sabes porquê?

Aqui vai, amigo... estamos a precisar de ti! Sim, de ti que estás a ler isto. Mas porquê? Perguntar-me-ás tu. E eu vou responder-te, ou tentar responder-te claramente. Aliás se conseguiste ler até aqui, já deves calcular do que se trata.

 

Sim, é isso mesmo: estou frustrado com o que se passa em Portugal, com a colocação dos professores no ensino público!

 

Eles que se desenrasquem! Ah sim, claro, mas não te esqueças que... se hoje ainda não és pai, amanhã poderás ser.

 

Vais querer que o teu filho começa as aulas só em Outubro?? Ou que um dos professores do teu filho comece a faltar às aulas, no primeiro período, e depois para recuperar o tempo, manda o teu filho estudar em casa, sem nenhuma explicação?

 

Pois é caro amigo. É o que mais acontece neste país! Se não te lembras de como eram as tuas aulas, então eu vou recordar-te.

 

Os professores são colocados à última da hora. Isso todos nós sabemos. O que é que isso implica na vida de um professor? Já pensaste nisso? Ora, imagina-te lá tu seres um professor de matemática, viveres em Bragança. Candidatas-te primeiro para escolas mais perto, certo? Mas podes ser bem chamado a dar aulas numa escola de Faro. E se for o caso, o que é que acontece? Tens de andar a procurar casa. As aulas estão aí, o tempo apressa-se, começa a haver uma grande pressão sobre a tua cabeça. Sendo professor de matemática, a primeira coisa que vais fazer são contas à vida. Começas a desenhar um algoritmo até teres onde dormir e ficar, esgotando todas as hipóteses, para encontrares a solução.

 

És solteiro? Espectáculo, voltamos ao tempo de estudante. Mas se fores casado, aí já é diferente! Mais um algoritmo.

 

Levo a mulher? Ela fica? Se a levo, pagamos um apartamento. Se ela fica, é uma renda e um crédito.
O dia da apresentação está quase. Fixe! Já tens casa?! Que fixe! Agora precisas de calcular a despesa que vais gastar por mês. Opss vai dar mas à justa! Ah é? Boa! Pensa positivo! Tens amigos teus que não estão colocados, são só mais de 20 mil. És um sortudo pah! Não reclames!

 

Bem, chegas na tua nova casa que arrendaste por 11 meses por ser solteiro, começas a deparar com problemas: torneiras já velhas a pingar água, o chuveiro que tem o sifão entupido, a descarga de água do WC que está a pedir outro novo, umas maçanetas que estão a precisar de serem substituídas, etc. Mais um orçamento! Mais umas contas!

 

Tens o armário do quarto que está pêro e não se abre de maneira nenhuma. Pensas assim "oh que se lixe, eu desenrasco-me sem armário!". Tens o micro-ondas que o proprietário te deixou que gasta electricidade, muita electricidade e aquece quase nada, mas só dás conta disso na 1ª factura da EDP. Tens de comprar um PC portátil porque até então estavas sempre perto de casa e não precisavas, tinhas um PC fixo em casa dos teus pais.

 

Estás a 30 minutos da escola a pé e por enquanto não tens carro. Dependes de transportes públicos... Como é que vais fazer? Começas a ver que vais ter de pedir alguns dias, durante a semana, ou umas manhãs, ou ainda umas tardes, ou seja, vais ter de ter um grande jogo de cintura até teres a casa à tua maneira. Se o teu gestor de condomínio ajudar, tudo bem. Estás safo! Não? Ele não te ajuda? Epah então vais ter mesmo de perder umas horas.

 

Ok, já foi o dia da apresentação, começam as aulas. Estás na tua 2ª semana de aulas e metade dos problemas em casa ainda existem. Ligaste um canalizador para resolver aquele problema do chuveiro e das torneiras, combina contigo um dia da semana... Opss tens aula nesse mesmo horário! E agora? Vais ter de falar com o director de turma, o director da escola e apresentar um pedido de ausência forçada, para substituição só para aquele dia. Aceitaram? Safaste-te, mas puseram logo os pontos iis, avisando para não se repetir. Já estás queimado!

 

Bem, as aulas começaram, tens de começar a estudar o perfil de todos os teus novos alunos, ver o que eles sabem, fazer o ponto de situação de cada um deles e fazer um relatório de avaliação pessoal. É só mesmo para teres ideia com quem estás a meter-te.

 

Começam as aulas a sério, mas já estamos em Outubro. Já perdeste um mês de currículo. Com toda a confusão, e agora que tens a cabeça mais assente, vais ter de dedicar-te ao máximo aos estudos. Reparas novamente que tens já um mês de atraso. O teu colega de matemática já está a dar aula há 15 dias e tu ainda nem sequer começaste, por causa do tempo que perdeste com o alojamento e as obras.

 

Começas a ser pressionado pelo director de turma que te diz que o teu colega está já a dar aulas do 11.º ano, e tu ainda agora acabaste de avaliar os teus alunos, mas ele que os conhece desde o ano passado, porque ele já deu aí aulas nessa escola, não precisa de os avaliar. Porém o director de turma, mesmo sabendo disso, te pressiona de qualquer forma.

 

Tens de começar a elaborar uma estratégia para tentar recuperar o "tempo perdido" e começas a contar com os teus alunos que estão aptos a apanharem "esse comboio". Consegues recuperar todo o tempo perdido em menos tempo do que aquele que previas. Espectáculo! Começas a ficar bem visto. Outro sinal óptimo: os teus alunos estão com uma excelente média e por sinal... melhor do que a outra turma. O teu trabalho de casa (preparares as aulas; adequares as aulas aos teus alunos; arranjares exercícios com soluções já feitas que batem certas, sem direito a margem de erros; relatórios de reuniões; contactos com os pais dos alunos, etc.) tem de ser conciliado com toda a tarefa de casa (lavar louça, lavar roupa, fazer comida, ir às compras, etc.).
Mas uma bela semana, cais na gripe, começas a ficar em casa, cheio de febre. Pedes à escola 10 dias (7 dias úteis) o equivalente a 4 aulas de matemática (imaginemos). Lembras-te das aulas por videoconferência. Ligas ao director de turma e ele engendra uma maneira de conseguir isso e consegue mesmo. Boa! Começas a dar aulas a partir de casa, os teus alunos assim não perdem nenhuma aula. Ainda facilitas a coisa, deixando o teu e-mail a cada um deles e comprometendo-te a ajudar por e-mail.

 

Aproxima-se o Natal. Mais umas reuniões, as do primeiro período, com as avaliações finais do primeiro período. Recebes as boas novidades do teu director de turma.

 

Entras com o pé direito no outro ano. Num abrir e fechar de olhos, já estamos em Maio. Começas a preparar-te para as provas globais, preparando os teus alunos.

 

Surpresa de final de ano: todos os teus alunos passam com notas acima de 14 valores e os alunos da outra turma também de Matemática A passam com notas entre 11 e 14 valores. És felicitado pelo director de turma.

 

Começam então as reuniões de final de ano, as avaliações são até bastante fáceis porque tiveste bons alunos, que... por sinal, no início não aparentavam sê-lo.

 

Ok, acabou-se o ano para ti. Entregas a casa, informas-te se podes tê-la novamente para Setembro para caso de ficares novamente na mesma escola e dizem-te que sim. Menos uma dor de cabeça para o próximo ano lectivo, pensas tu! Voltas então para casa dos teus pais... Voltas para Bragança. Passas as férias com os teus pais e dentro de poucas semanas já tens de começar novamente a pensar na colocação.

 

Mais uma corrida! Opss... mas este ano lectivo não és colocado. Voltas ao desemprego. Vida difícil! Estavas na expectativa de ficares colocado naquela escola, então decides ligar para o director e ele diz-te que não, dando-te como desculpa de que te portaste mal no primeiro período e que ele não quer que isso volte a acontecer. Ainda tentas em dar a volta a situação informando-o que já tens casa, e é só instalares-te lá, mas ele continua com a dele. Ficas de vez sem emprego. O que tu não sabes é que o outro ficou com inveja e fez-te a vida negra.

 

 

Bem, voltando ao nosso artigo. Esta história foi só para veres como é mais ou menos assim por alto, a vida de um professor solteiro. Agora imagina a vida de um professor casado, com filhos. Os trabalhos de casa aumentam! Já para não falar nas dores de cabeça e nos tempos de aula perdidos, à procura das escolas para os miúdos, etc.

 

Agora que já tens uma pequena ideia muito mal contada de como é a vida de um professor, já imaginaste isso tudo do lado negativo? Pois é, e é o que mais acontece. Quem paga? Os alunos! A realidade é essa amigo!

 

Queres continuar a ter uma realidade como essa? Então deixa-te estar. Preocupa-te apenas com o teu trabalho, não ligues nenhuma ao ensino e à educação, mas depois não te admires que o teu filho chegue ao 10.º ano e te diga "Pai, olha, não consigo avançar mais.". Com 17 anos e agora? Para as obras? Pois é...

 

Ah agora queres fazer alguma coisa? Então junta-te aos professores na luta para uma educação melhor! Junta-te a eles, porque neles está a responsabilidade do futuro do teu filho.

 

Não podes ignorar as greves dos professores, nem deves de queixar-te. Deves sim comparecer, e fazeres também greve.

 

Hoje és tu, a lutar pelo teu filho! Amanhã poderá ser ele a lutar por ti... ou pelo teu neto!

 

 

 

 

 

 

 

 

Enfim, aqui fica o meu "Desabafando XXI"... até ao próximo! 

 

 

 

"Corridalmente"